BRASIL: UMA PANELA DE PRESSÃO (OU ESTAMOS PERDIDOS)

O QUE ACONTECERÁ QUANDO A PANELA DE PRESSÃO EXPLODIR?

(SEM) INSPIRAÇÃO

HOJE ACORDEI INSPIRADO. MAS ACHO QUE EXPIREI.

SOBRE SER CULTO

A VIDA NÃO SE RESUME AO FACEBOOK.

A REVOLUÇÃO DOS MACACOS

SOMOS TODOS MACACOS, ALGUNS MAIS MACACOS QUE OUTROS.

NU

HOJE ME DEU VONTADE DE ESTAR NU.

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20 junho 2017

A postagem que não é 2

Dia 20 de junho de 2017


Eu não tenho nada a acrescentar a quem ler a esta postagem.

Esta postagem não usará de uma linguagem sofisticada ou revolucionária. Ela não preencherá o vazio de sua existência. Você não se lembrará dela daqui há dois dias.

Essa postagem não é arte. Sequer é literatura. É o oposto da poesia, da prosa e da crônica. Esta postagem é uma anomalia. Não a leia.

Não é poesia para recitar. Não é verso para declamar. Não é gostosa de ouvir. Não rima. Soa torta. Não é sequer dadá. Este texto - se é que podemos chamá-lo assim - não será objeto de análise. É a perda do seu tempo, é a abstração de tudo o que é inútil, é a personificação do vazio.

De tudo o que ela é, não se tiraria sequer uma linha. A sua imensidão está em tudo o que ela nega. O contrário do que existe. Tudo o que sei sobre essa postagem é que ela não é. E por que haveria de ser?

26 maio 2017

Realeza Canibal

Dia 25 de maio de 2017

O Rei 1 sofreu um golpe. Eram poucos os plebeus que ainda o apoiava. Faltava-lhe eficiência e inteligência. A plebe não estava contente.

Apesar disso, o golpe não foi uma iniciativa popular, mas orquestrado pelos reis 2, 3 e 4. Ainda que suas diferenças fossem grandes e seus egos equivalentes, se uniram pela máxima "o inimigo do meu inimigo é meu amigo". Inimigo derrotado, sobrou apenas as diferenças. 

Ocupados em resolver suas diferenças, foi o Rei 5 - que ainda não tinha entrado na história - quem ascendeu ao poder, aproveitando-se do vácuo momentâneo. Apesar disso, os Reis 2, 3 e 4 ainda comandavam todo o sistema. O Rei 5 era decorativo. Só ele não sabia disso.

O sistema dos novos reis era mais impositivo que o antecessor. Faltava diálogo, sobrava ordens. A plebe, que já não estava feliz anteriormente, sentia-se cada vez mais fora do jogo. Os outros mandavam e a eles só restava obedecer.


Foi então que se uniram. Democraticamente, lutaram pelos seus direitos. Não queimaram prédios, não fizeram greve, não ergueram bandeiras. Apenas reclamaram ao Rei 5 por mais direitos. E nada mudou. Num sistema onde o diálogo não é considerado, a luta pelo viés democrático é ineficaz.

Porém, ao mesmo tempo em que a plebe lutava em vão por seus direitos, as diferenças entre os reis ficava cada vez mais evidente. 

O Rei 5 ainda estava iludido pelo cargo ilusório que lhe foi conferido. Os  Rei 2 jogava contra o Rei 3 e o Rei 5, e achava que tinha apoio do Rei 4. Mas o Rei 4 não apoiava ninguém, apenas a ele. O Rei 3, por sua vez, fazia movimentos contra o 2 e o 5.

A plebe percebeu que não estava fora do jogo. Eles só estavam sãos. Ao contrário dos Reis. Estes cegos, insanos, loucos e canibais.

A plebe, ainda sofrida, decidiu apenas assistir. Assistiam ao lento e vergonhoso declínio dos Reis. Não havia torcida por nenhum deles. Apenas o desejo masoquista de ver a realeza canibal sangrar. E a cada gota de sangue azul derramada, um sorriso plebeu se abria. A sanidade tem seu preço. A insanidade também.

28 janeiro 2017

Pensamentos de um mochileiro: Chile, Bolívia e Peru (Parte 1)

Países visitados: Chile, Bolívia e Peru
Duração da viagem: 20 dias
Integrantes do mochilão: Eu (Danilo) e Rafael
Idiomas falados na viagem: Português, Portuñol (Português + Espanhol), Portuliano (Português + Italiano) e Inglês
Tempo de planejamento: aproximadamente 3 meses
Tipos de lugares visitados: Cidades grandes e urbanas, cidades pequenas, lagos, rios, deserto, montanhas, geysers, águas termais, ilhas e tribos
É preciso ser rico para viajar: NÃO!


PRAZER, DESERTO

Dia 28 de janeiro de 2017


Era o sétimo dia de viagem. Mas lá, ao contrário dos outros tantos momentos incríveis que já tive o privilégio de viver, as horas passavam devagar. Talvez fosse devido à paisagem quase monocromática que eu via há provavelmente mais de 10 horas seguidas pelas janelas do ônibus. Um marrom quase alaranjado. Ora montanhas, outrora nem isso. Sem sinal algum dos verdes tão visíveis das terras tupiniquins. Era uma paisagem muito diferente daquela que estive acostumado a enxergar no Brasil. Mas não era de forma alguma uma visão intimidadora ou tediosa. Aquela paisagem não fez com que eu me sentisse um forasteiro. Ao contrário. Uma estranha sensação de pertencimento me atingia. O deserto do Atacama, localizado na parte norte do Chile e, até então, um completo desconhecido para mim, me recebia de braços abertos. Isso, claro, considerando a terra quase infinita e um Sol intenso como um grande afago de ternura. E era. Ao menos para mim.

Ao meu lado, Rafael dormia. Eu, sentado na poltrona próxima da janela, ouvia músicas enquanto olhava para a imensidão do deserto, quase como numa meditação. De repente, o modo aleatório do meu playlist me tirou do transe num dos momentos mais simbólicos de toda a viagem.

"Gracias a la vida que me ha dado tanto..."                 (Graças à vida que me deu tanto)

A argentina Mercedes Sosa invadia meus ouvidos, cantando a música mais emblemática de uma das maiores compositoras folclóricas da América Latina: a chilena Violeta Parra. 

"Me dio dos luceros que cuando los abro                     (Me deu dois olhos que quando os abro
Perfecto distingo lo negro del blanco..."                      Distingo perfeitamente o preto do branco...)

Nesse momento me senti latino, algo tão distante de nós, brasileiros. Ainda que ouvindo uma música de um idioma que não é o meu, e que não domino, eu também pertencia àquele lugar.

"(...)Gracias a la vida que me ha dado tanto              ((...) Graças à vida que me deu tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario                        Me deu o som e o abecedário 
Con él, las palabras que pienso y declaro                  Com ele, as palavras que penso e declaro
Madre, amigo, hermano                                             Mãe, amigo, irmão
Y luz alumbrando la ruta del alma del que                E luz clareando o caminho da alma de quem 
estoy amando"                                                            estou amando)

Em pleno Atacama, uma lágrima teimou a descer dos meus olhos, como se uma gota pudesse umedecer o deserto mais árido do mundo. Mas aquela paisagem, somada à trilha sonora perfeita e uma sensação de liberdade foi uma das sensações mais fortes que já havia sentido.

"Minha casa está presa à vários balões, sendo possível tornar o meu lar em qualquer lugar" (Gabriel Feitosa)
Valle de la Luna

Dentro do ônibus se falava vários idiomas. Estranhamente, como eu e Rafael pudemos constatar e como virou quase uma regra em todos os três países que visitamos, havia turistas brancos de todas as formas e cores. Negros quase inexistentes. Dentre os de pele clara, um casal de japonês bastante exótico. Curiosamente, o ônibus foi o primeiro lugar que os encontramos. Mas não o último. Durante  todo o resto do nosso percurso pelo Chile e praticamente toda nossa vigem pela Bolívia, nós sempre cruzávamos com esse casal. É impressionante como viagens proporcionam encontros anônimos. Nunca trocamos uma palavra com eles. Não sabemos seus nomes, se realmente são japoneses ou de algum outro país oriental. E nunca descobriremos. Mas compartilhamos os mesmos ambientes e as mesmas paisagens.

Conheci tanta gente de tantos lugares, pessoas que se tornaram amigos verdadeiros ainda que por apenas alguns dias, e que nem barreira do idioma e nem a barreira cultural impediram de haver mais que comunicação, empatia. Certamente, quem faz guerra nunca viajou. Por isso, a arte e a viagem são as duas coisas mais próximas do humano que eu, humano, conheço. São  linguagens universais. Talvez existam outras. E, se existir, me falem.

Nas próximas semanas escreverei aqui no blog o roteiro exato da viagem, como alguns vem me pedindo. Roteiro em ordem cronológica, e não um texto que já se inicia falando sobre o sétimo dia de viagem. Mas as sensações são tão voláteis e inexatas, que achei que a urgência maior era essa. Mais que músicas, trilhas sonoras para sua viagem. Mais que lugares, sentimentos. Mais que culinárias, paladar.  Afinal, literatura combina tão bem com viagens, não é mesmo?

16 setembro 2016

Hoje me reconheci feliz

Dia 16 de setembro de 2016

Hoje me reconheci feliz
logo após ter visto a tristeza naquele homem que há tanto tempo não via.

Hoje me reconheci feliz.
Seus olhos estavam fundos, perdidos, sem vida e cansados.

Hoje me reconheci feliz.
Sua pele queimada e manchada, e a postura curvada de quem parece ter todo o peso no mundo em seus ombros.

Hoje me reconheci feliz.
Ele parecia estar voltando de um trabalho que não gosta, para uma casa que não chama de lar, para uma família que não escolheria como sua.

Hoje me reconheci feliz.
De alguma forma, aquele corpo semi-morto, ao cruzar meu caminho por acaso, me fez reconhecer a minha própria felicidade. Uma felicidade que, de tão rotineira, se fez tímida.

Hoje me reconheci feliz.

02 setembro 2016

Um Golpe de Direita

Dia 2 de setembro de 2016

A luta foi televisionada. Não necessariamente na íntegra. Transmitiram apenas os melhores momentos. Ou melhor, o que eles julgaram ser os melhores momentos. A batalha foi editada.

Boa parte do público presente no ringue gritava o nome do desafiante. O atleta desafiado, já sabendo de sua eminente derrota, decidiu que apenas um nocaute o tiraria da luta. Uma parte do público que estava do lado de fora gritava seu nome. A última etapa da luta estava para começar.

O público presente no ringue que gritava o nome do desafiante, uma massa de gente composta, em sua maioria, por homens brancos de meia idade, sabia que ele não era um heroi ou um grande exemplo a ser seguido. Era mais um grito de ódio ao outro que de apoio a este.

Já os do lado de fora eram, a olhos nus, mais misturados, menos homogêneos. Eles gritavam o nome do cambaleante atleta. Assim como os outros, estes também sabiam que o futuro derrotado nem sempre deu à eles a atenção que mereciam. Não havia herois naquele espaço.

A batalha que, para alguns, tinha traços épicos, para outros - inclusive para mim - era travada por dois selvagens, lutando em uma selva travestida por um edifício luxuoso e por pessoas supostamente civilizadas. Não era tatame, mas ringue. Mas não era boxe. Não era MMA. Aquilo era um vale-tudo.

O juiz deu o sinal. Começou o sexto assalto. E - não se enganem! -, desse e dos outros assaltos ambos os lutadores participaram. O desafiado, mesmo cansado, permanecia de pé. O desafiante, percebendo sua fraqueza, partiu para cima e lançou-lhe um golpe. Não com os pés, não com a cabeça. Mas, sim, com a mão. Com a mão direita. O golpe de direita acertou diretamente seu oponente, que caiu e lá permaneceu até o final da contagem.

O desafiante conquistou a faixa e se tornou o novo campeão. Dias após a batalha, o perdedor não se conformava com o golpe que levou, dizendo ter sido irregular. E foi mais além: denunciou que os juízes haviam sido comprados. Um verdadeiro escândalo que, obviamente, não foi incluído na edição transmitida pela televisão. Se isso foi verdade, não se sabe. A única certeza é que, de fato, alguns milhares de reais a mais têm aparecido mensalmente nas contas bancárias dos juízes.

Mas não se preocupem. As coisas nem mudaram tanto. O atleta nocauteado está bem de saúde, liberado pelo departamento médico para participar de outras lutas. O mais novo campeão continua sem grande popularidade. O público mantém seu ódio. A televisão permanece editando.

O novo vencedor, aliás, parece ser imbatível. Alguns o estão comparando até com um dos maiores lutadores da história: o famoso campeão de 1964.


-------- in English --------

Right Punch

September 2nd, 2016


The fight was televised. Not necessarily in full. Only the best moments was transmitted - or rather, just what they judged to be the best times. The battle was edited.

Almost all of the audience shouted in the ring the challenger's name. The challenged athlete, knowing of his imminent defeat, decided that only a knockout would remove him from fighting. A part of the audience that was outside shouting his name. The last stage of the struggle was to begin.



The crowd in the ring who was shoutting the challenger's name, a folk mass composed mostly by white middle-aged men who knew he was not a hero or a great example to follow. It was more a hate against the other fighter than to support him.



Outside were, the people was obvious more mixed, less homogeneous. Women, black, artists, homosexuals and other groups shouted the name of tottering athlete. Like the others, they also knew that the future defeated fighter not always gave them the attention they deserved. There were no heroes in that place.


The battle had epic traits for some people. But to others - including me - it was fought by two wild beasts. After all, it was a jungle disguised by a luxurious building and supposedly civilized people. It was not tatami, but ring. But it was not boxing. It was not MMA. It was a fight with no rules.

The judge gave the signal. The sixth round* has begun. And - make no mistakes! - both of fighters this participated of this and the
 other rounds. The challenged, even tired, stood. The challenger, knowing his weakness, went up and gave him a blow. Not with his feet, not with his head. But with his hands. With his right hand. The right punch strike directly hit your opponent, who fell and remained there until the end of the count.

The challenger won the track and became the new champion. Days after the battle, the loser didn't conform to the punch that he brought, saying the other fighter had been irregular. And he went further reported that the judges had been bought. A scandal. But, obviously, it was not included in the edition broadcast on television. If it was true, I don't know. The only certainty is that, in fact, a few thousand dolars more have appeared monthly in the bank accounts of the judges.

But don't worry. The things doesn't have changed so much. The knocked out athlete 
is in good health, released by the medical department to participate in other fights. The youngest champion continues without great popularity. The public keeps his hatred. Television remains editing.

The new winner, incidentally, seems to be unbeatable. Some are even comparing him with one of the greatest fighters in history: the famous 1964 champion.

*In portuguese, round and assault are the same word

13 junho 2016

Atiraram

Dia 13 de junho de 2016

Entraram. Atiraram.
Não me conheciam. Atiraram.
Não perguntaram o meu nome. Atiraram.
Não sabiam de onde eu vim. Atiraram.
Não olharam nos meus olhos. Atiraram.
Não me deixaram dizer adeus. Atiraram.
Não aguardaram meu último suspiro. Atiraram.
Mataram meu corpo, mas jamais o que sou.

"Meu irmão - que era gay - foi assassinado com 107 facadas. Sete facadas matam um homem, para que outras cem? O que o cara quer matar ao apunhalar um cadáver sem parar? Matar algo que ele não consegue". (Zé Celso)

Em memória de todas as vítimas de intolerância.

-------- in English --------

They entered. They shot.
They didn't know me. They shot.
They didn't ask my name. They shot.
They didn't know where I came from. They shot.
They didn't look in my eyes. They shot.
They didn't let me say goodbye. They shot.
They didn't wait my last breath. They shot.
They killed my body, but never what I am.

"My brother - who was gay. - was killed with 107 stab wounds. Seven stab wounds kill a man, so why that other hundred? What a guy wants to kill stabbing a corpse without stopping? Kill something he can't". (Ze Celso)

In memory of all intolerance victims.

24 março 2016

Abaporu: comer e vomitar

Dia 24 de março de 2016

Sim, o blog está sendo realmente pouco atualizado ultimamente. Estou eu bebendo e comendo de outras fontes. Nem todas tão construtivas, devo confessar. Mas as ideias e a formação não precisam vir necessariamente do erudito. Esse é um pensamento elitista e pretensioso.

O problema não é nem tanto o que comemos ou bebemos, mas sim o que vomitamos. Perdoem-me a escatologia. Mas uso esses termos com total consciência, já que não existe época mais escatológica que nossos tempos atuais, especialmente no Brasil.
#PraCegoVer - Imagem do quadro Abaporu. Um
homem sentado com as pernas dobradas, e pés e mãos gigantes e segurando sua pequena cabeça com a mão esquerda. Atrás dele existe um cacto com uma flor. // #Inclusion - Abaporu image frame. A man sitting with his bent leg, with giants feet and hand. He is holding his little head with his left hand. Behind him there is a cactus with a flower.

Tive a oportunidade, em janeiro deste ano, de conhecer a capital argentina e, consequentemente, de visitar o MALBA (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires), onde pude ver de perto o quadro mais emblemático da arte brasileira: o Abaporu, de Tarsila do Amaral. Ou "o homem que come carne humana", em tupi guarani. E, assim como um dos movimentos artísticos mais importantes da história brasileira, o Movimento Antropofágico, iniciado na Semana de Arte Moderna de 1922 a partir dessa obra, o principal não é o conhecimento que nos é oferecido (aquilo que comemos), mas sim a forma como devolvemos esse conhecimento para o mundo (regurgitar é preciso!).


Vivemos um tempo em que a escatologia de O Abaporu se faz necessária. Fiz, alguns anos atrás, um curso onde, antes de qualquer apresentação ou boas-vindas, podíamos ver um cartaz com a seguinte frase: "Não acredite, experimente. Tenha suas experiências pessoais". E isso me marcou bastante. A partir do momento em que temos a consciência de que o monopólio do conhecimento não é nosso; a partir do momento em que nos damos o benefício da dúvida; de que deixamos de julgar a convicção do outro e passamos a analisar criticamente as nossas próprias convicções, sejam elas políticas, espirituais ou esportivas, é que cresceremos. É fácil vomitar o conhecimento do outro. Difícil mesmo é regurgitar o nosso.

Quem melhor pra criticar suas próprias convicções que você mesmo? Assim como o vômito literal, esse também não é muito agradável. Mas em tempos de polarização extrema, a escatologia filosófica de Abaporu pode nos ajudar a, pelo menos, não sermos fundamentalistas arrogantes. Quem sabe, comendo e vomitando, nós não conseguiremos pelo menos uma boa convivência entre nós?

"Ainda quero paz, eu quero alegria
Fazer melodia à luz do luar, la la laiá
Encontrar os amigos, fazer poesia
Deixando a saudade na fotografia
Coisa melhor não há"
(Mr.Catra)
Obs: Eu disse que estava bebendo e comendo de diversas fontes.

#PraCegoVer - Imagem do quadro Abaporu. Um homem sentado com as pernas dobradas, e pés e mãos gigantes e segurando sua pequena cabeça com a mão esquerda. Atrás dele existe um 
cacto com uma flor.


-------- in English --------

Abaporu: eat and vomit

March 23th, 2016

Yes, this blog is being updated infrequently. I am drinking and - why not? - eating from other sources. Not all as refined, I must confess. But the ideas need not necessarily come from the scholar. This is an elitist and pretentious thought.

The problem is not so much what we eat or drink, but what We vomit. Forgive me the eschatology. But I write these terms in full consciousness, since there is no longer eschatological time that our present times, especially in Brazil.

In the last January, I travelled to Argentine capital and, consequently, I visited the MALBA (Latin American Art Museum of Buenos Aires), where I could see the most emblematic picture of Brazilian art: Abaporu, by Tarsila do Amaral. Or, in a Tupi Guarani translation, "the man who eats human flesh". And as one of the most important artistic movements of Brazilian history, the Antropofágico Movement started in the Modern Art Week of 1922 from this work of art, the main isn't the knowledge that is offered to us (what we eat), but how we return this knowledge to the world (regurgitate it takes!).

We live in a time when the eschatology of the Abaporu is necessary. I did a few years ago, a course where, before any presentation, we could see a poster with the following sentence: "Don't believe, experiment. Have your own experiences". That impressed me a lot. From the moment that we are aware that the monopoly of the knowledge is not ours; from the moment we accept the benefit of the doubt; that we fail to judge the conviction of the other and we started to critically examine our own beliefs, whether political, spiritual or sports, we can grow. It's easy to throw up on the knowledge of the other. The hard thing is to regurgitate our knowledge.

Who is better to criticize your own convictions that yourself? Just as the literal vomiting, this is not very pleasant. But in extreme polarization times, the philosophical eschatology of Abaporu can help us to not be arrogant fundamentalists, at least. Who knows, eating and throwing up, we can be able at least one good relationship between us?

"I still want peace, I want happiness
Make melody in the moonlight, la la laia
Find friends, do poetry
Leaving the longing on the photo
best thing there is"
(Mr.Catra)


Note: I told you I was drinking and eating from various sources.

#Inclusion - Abaporu image frame. A man sitting with his bent leg, with giants feet and hand. He is holding his little head with his left hand. Behind him there is a cactus with a flower.

02 março 2016

Entrevista de Emprego

Dia 2 de março de 2016

- O que eu busco não é necessariamente o que vocês me oferecem. Isso, claro, se, desde o início, superarmos o comer, beber e morar. A busca, em geral, costuma transcender o básico. Viver. Busco viver. Percebe como não procuro o que você me oferece? Dá-me ar condicionado enquanto quero brisa fresca. Envia-me fretado enquanto quero viajar sem destino.  O que procuro não pode ser oferecido aqui. Eu sei disso. Você sabe.
O que procuro, porém, também não posso me oferecer. Tendo isso em vista, questionar sobre essa busca talvez não seja uma forma adequada de iniciarmos essa conversa. Ao menos não em um diálogo franco e aberto. Proponho, então, superarmos desde já as formalidades e falsas aparências criadas desde a entrega do meu currículo. Eu não sou meu currículo. Ninguém o é. Supere isso. E o diálogo, apesar de aparentemente ser com você, é, na verdade, entre mim e uma instituição privada que visa o lucro através de uma mão de obra que seja qualificada o bastante para exercer a função por um valor que seja o mínimo possível. Essa busca, sim, é a real. A minha é apenas ilusão, sonho, devaneio. Estou aqui porque sou aquele que essa empresa busca. Posso desempenhar tais funções de forma adequada, tenho capacidade e estudo, e preciso comer, beber e morar, pois tenho fome, sede e a necessidade de manter meu lar. Tendo isso em vista, minha busca é o que menos importa. A pergunta sou eu quem lhe farei. Eu sou o que vocês buscam?

O entrevistador, desconcertado, responde.

- Bem... de fato seu currículo nos surpreendeu. É bem provável que você seja contratado. Porém, uma última pergunta. Qual o seu maior defeito?

- Sinceridade.

23 agosto 2015

Luvas

Dia 23 de agosto de 2015

Você me tocou com essas luvas cor de melancolia.
Não se sabe ao certo se foi você ou as luvas. Ou ambos. Tal como numa parceria.

Sei apenas que as luvas que hoje visto já foram suas, presente meu. E, se comprei, também foram minhas por um momento, ainda que soubesse que estavam destinadas a esquentar as suas mãos.

Visto a sua ausência, visto as luvas, outrora suas, apenas para sentir mais uma vez o seu toque. Incompleto. Ao meio. Não é seu. Assim como as luvas, que não são mais suas. E são.


29 outubro 2014

O homem é uma ilha

Dia 29 de outubro de 2014

Há gente de luto,
gente que briga;
birra.
Há gente que luta.
A cada quatro,
durante os quatro,
e sem data marcada;
Esporádica.
Aquele que gosta de grandes eventos,
das grandes passeatas,
do que é mega.
Há quem queira separação do país,
ou no casamento,
ou apenas dos recicláveis e não recicláveis.
Separação dos pais, jamais.
Há muitos países dentro do país.
Muitas mentes em nossas mentes.
Há muitos que mentem.
E quem nunca mentiu?
Há quem critique os outros,
dizendo que estamos nos transformando em uma pequena ilha.
Há gente estudada e ignorante.
Humilde e ignorante.
Ignorante e ignorante.
De fato, nós já somos Cuba.
Pois o homem é uma ilha.
Cercado por todos os lados de sua própria ignorância.

08 outubro 2014

Mais quatro

Dia 8 de outubro de 2014

Nesta quarta,
Quatro para as quatro,Descobri que,
Por mais quatro,
Estaremos de quatro
Para os quatro - ou mais
Que detém os quatro poderes.

Mas nao ficarei em meu quarto
Dormindo em meu quarto sono. 
Andarei pelas quadras
Com mais quatro, quarenta ou quatrocentos. 
Descalços ou calçados
No chão de asfalto, terra ou quatzo.
Levantaremos nossas bandeiras.
Vindas dos quatro cantos de nossa nação.
Ou não.

10 setembro 2014

Cristofobia

Dia 10 de setembro de 2014

Preciso desabafar.

Já não consigo mais esconder. Sou cristão. Seria mais fácil ao contrário, eu sei. Não precisava me expor dessa forma, eu sei. Mas é complicado pra mim viver meias verdades. Tomei essa decisão de me declarar publicamente cristão para me sentir liberto, completo. Ao contrário do que pensam, não escrevo este texto para aparecer, chocar ou repercutir. Escrevo para, pela primeira vez, conseguir ser quem eu sou.

É difícil ser cristão hoje em dia.

Nossas igrejas, nossos locais de culto, não são bem vistos. A burocracia para criá-los é muito grande, e justamente por isso há tão poucas igrejas, templos e salões em meu bairro, em minha cidade. Os impostos são absurdos.

A cristofobia é um mal que assola nossa comunidade. Quando ando com minha bíblia embaixo do braço, logo vem olhares me fuzilando, me condenando por eu não pertencer à moral vigente da sociedade. Muitos amigos meus tem dificuldade para contar a seus pais que são cristãos. A aceitação é algo complicado. Aceitar o diferente é algo complicado. Alguns - pasmem! - foram até expulsos de casa. O pior não sei se é o preconceito explícito, aquele que xinga, constrange, expulsa ou mata nossos irmãos cristãos, ou aquele velado, presente no discurso "Eu amo todo cristão, mas não a sua cristandade". Isso não é um discurso de amor fraterno meus caros agnósticos, umbandistas, candomblecistas, budistas, ateus, wiccas e naturalistas fundamentalistas. Isso é um discurso cristofóbico. 

Eu prefiro acreditar que nasci cristão. A ciência ainda não conseguiu provar se a pessoa já nasce ou se torna ao longo da vida. Quiseram já propor um estudo que relacionava a localidade de nascimento com a religião seguida pela pessoa. Tentaram chegar a conclusão que quem nasce em países latinos tende a se ser cristão, assim como quem nasce no Japão tende a ser budistas e quem nasce na Suécia tende a ser ateu. Mas acho que isso é querer predeterminar as coisas. Devemos conviver com as diferenças, e não taxá-las como anomalias. Por que, ao invés disso, não gastamos dinheiro para pesquisas com curas de doenças, com pesquisas para criar mecanismos para combater a miséria no mundo? Estes sim são objetos urgentes de estudo.

O que acredito é que a cristofobia deve ser criminalizada. E o que me acalma é ter a certeza que daqui algumas décadas este será um assunto tão ultrapassado que, ao olhar para trás, teremos vergonha do quanto a sociedade já teve uma mentalidade atrasada.

25 agosto 2014

Sem fita amarela

Dia 25 de agosto de 2014

Que me desculpe Noel Rosa, mas quando eu morrer, eu quero choro e vela, sim.

Quero, por um momento, ser lembrado só pelas coisas boas que fiz. Pois sei que, ainda que as coisas boas sejam menor em quantidade que as más ou indiferentes, serão elas as que reinarão no imaginário de quem me conheceu.

A morte perdoa todos os erros. A morte beatifica.

O morto é um ser moralmente intocável.

21 agosto 2014

Se eu fosse eu (ou É tudo hipotético)

Dia 21 de agosto de 2014

Se eu fosse realmente eu, os meus amigos não me cumprimentariam na rua.*
O que eu seria? O que eu faria?

Se eu confessar que já pensei em matar, qual seria a sua reação? Ou pior. Se eu confessar que já
pensei em me matar, qual seria a reação? Ou pior. E se eu confessar que já pensei?

Poderia declarar que já tive vontade de deletar você do meu Facebook. Que já tive vontade de deletar meu Facebook. Que o Whatsapp me perturba. Que não tenho coragem para abdicar deles.

É preciso muita coragem para afirmar que já abri a porta de casa pensando em fugir. Que já abri, escondido, a geladeira e comi um pote inteiro de leite condensado. Que já escondi coisas para não dividir. Que já roubei... roubei fila ou - é tudo hipotético - dinheiro. Que já matei... matei aula ou - é tudo hipotético - algum bichinho de estimação.

Se eu fosse eu, ainda estaria aqui? Na mesma casa, no mesmo bairro, cidade e estado? Em que estado de consciência eu estaria?

Como você me olharia se eu me tornasse uma puta? Isso, puta, artigo feminino. Com maquiagem e salto alto. Seu incômodo seria mais pelo que eu sou, ou pelo que você não é?

Se eu fosse ateu?

Me tornaria um hippie cabeludo que canta em volta de uma fogueira?

O que você faz quando ninguém te vê? Se eu fosse eu, estaria liberto? Ou, de novo, me cansaria de mim?

Talvez a vida teria mais brilho. Ou, talvez, eu não aguentasse. Quem sabe? É tudo hipotético.



*Frase de Clarice Lispector

24 julho 2014

Terra da Solidão

24 de julho de 2014

Eu vivo na Terra da Solidão.
Onde viver a dois é também viver só.
Aqui há crise de representação.
E toda apresentação mais parece um monólogo.
Sinceramente,
Eu pretendo me mudar logo
Desta terra da solidão.

Na esquina de minha rua há um filhote abandonado.
Há um filhote abandonado na esquina de minha rua.
Há uma criança abandonada na sala de minha casa.
E essa criança sou eu.
E essa criança é minha.
Mas – Meu Deus! – quem teve coragem de abandonar o filhote na esquina?

A minha terra é feita de solidão e de pessoas.
Cada vez mais pessoas.
Cada vez mais solidão.
Cada vez menos terra.
Cada vez mais distância.

Eu sou da Terra da Solidão,
Onde cada pessoa é uma ilha.
Nada me difere dos que aqui estão.
Sua terra é melhor que a minha?
Me leve, me mostre a saída.
Vou me exilar da Terra da Solidão.
Para que eu possa viver só em outro lugar.

22 julho 2014

Herói e heroína

22 de julho de 2014

Vamos falar de herói. Vamos falar de heroína.
O verdadeiro herói é anônimo. A verdadeira heroína é proibida.

Heróis famosos têm uniformes estilosos e corpos atléticos.
Se transformaram devido a grandes acontecimentos ou por fatores genéticos.
Já os heróis de verdade apenas nascem. Cantam. Choram. Nos fazem chorar. Trabalham. Alguns se drogam.
Onde está minha heroína? Me passa, então, um lanche com Itubaína, ou qualquer outra droga industrializada barata.

Heróis de verdade sangram. E morrem desconhecidos.
Heroínas estão sempre à margem.

Me diga o nome de sua heroína.
Você tem heroína?
Você tem?
Tem?

10 junho 2014

Vai ter Copa ou não vai?

10 de junho de 2014

Na minha casa vai ter copa.

Na verdade, minha casa tem copa desde que foi construída. Meus pais quiseram assim. "Divide melhor a casa", afirmaram eles. Na copa de casa só existe uma mesa de jantar. Porém, nem sempre jantamos nela. Seria a copa de casa, então, um elefante branco? É algo a se pensar.
Mas nem todas as casas tem copa. E nem todas as pessoas tem casa. Algumas casas não tem pessoas. Já a Casa do Povo deve ter copa. Só não deve ter povo.

Na casa do meu avô também tem copas. Pensando bem, não é bem na casa, mas sim no baralho. Com seus quase 90 anos, é um truqueiro de mão cheia. Olha, sorrateiro, pro seu parceiro de jogatina, e levanta a sobrancelha avisando tem carta boa na mão. Poderia ser o zape. Mas - ele sabe - um copas é sempre bem vindo.

No mundo de Mário também tem Koopa. Koopa, no mundo de Mário, é sinônimo de vilania. O Koopa do mundo de Mário já sequestrou uma princesa, jogou bombas e subiu em um balão com rosto de palhaço. Por outro lado, nunca tirou pessoas de suas casas, não superfatura estádios e não matou operários.

Se, na história de Alice, a Rainha de Copas joga criquet, por aqui, a Copa do Mundo joga futebol. Serão 32 países e, dizem, mais de um bilhão de pessoas assistindo, além de um milhão de turistas estrangeiros. Pra minha mãe não vai ter Copa. Ela diz que fica "muito nervosa quando tem jogo do Brasil". Tenho amigos que vão ao estádio ver o jogo e estão felizes da vida. Alguns vão protestar. Outros, ainda, assistir pela telinha.

O Koopa continua sendo um vilão. E meu avô continua jogando seu baralho.

- Truco! - gritou ele.
- Seis!
- Nove!
- Doze! - disse o adversário, mostrando o zape.
E meu avô perdeu, com o copas na mão.

06 junho 2014

Hábraço?

6 de junho de 2014

Precisamos trabalhar mais nossos abraços.
Antes até do que o beijo, mais até que do que a palavra.
Não ter medo da distância que diminui.
Do corpo com corpo
que, de tão próximo,
quase se torna um.

Sentir a respiração do outro.
Sem tapinhas desajeitados nas costas.
Abraço bom tem pressão,
troca de calor e de energia.
Hoje vou abraçar o mundo,
começando pelo primeiro desconhecido que encontrar na rua
sem pedir permissão.

04 junho 2014

Tragédia cotidiana

4 de junho de 2014

Acordar, trabalhar e dormir. No meio disso, comer, beber, mijar, cagar e se limpar. Para realiza-los, falar, andar, ouvir, pensar e mover. O coração bate, o pulmão respira. Compras, às vezes. Viagens, às vezes. Mesmos lugares, mesmas pessoas, mesmas conversas.

Nelson Rodrigues e suas tragédias. Teatro grego e suas tragédias. Mas a maior de todas é a do cotidiano. Dura uma vida e, de tão trágica, não se transforma em peça teatral.

26 maio 2014

Mentes

26 de maio de 2014

Infelizmente,
Infeliz mente.
Mente,
mas não me engana.
Felizmente.