BRASIL: UMA PANELA DE PRESSÃO (OU ESTAMOS PERDIDOS)

O QUE ACONTECERÁ QUANDO A PANELA DE PRESSÃO EXPLODIR?

(SEM) INSPIRAÇÃO

HOJE ACORDEI INSPIRADO. MAS ACHO QUE EXPIREI.

SOBRE SER CULTO

A VIDA NÃO SE RESUME AO FACEBOOK.

A REVOLUÇÃO DOS MACACOS

SOMOS TODOS MACACOS, ALGUNS MAIS MACACOS QUE OUTROS.

NU

HOJE ME DEU VONTADE DE ESTAR NU.

28 agosto 2020

Branco sobre branco

 Dia 28 de agosto de 2020    

    Eu não queria que você me lesse. Por isso a ocultação desse texto pouco inspirado. Ao mesmo tempo, se escrevi, é porque eu queria, sim, seus olhos sobrevoando linha após linha, sua boca fazendo movimentos mudos enquanto a sua mente — e não os seus lábios —as lê.

    Nós somos seres tão voláteis, não é mesmo? Queremos desquerendo. Evitamos nos aproximando. Caetano já sabe há muito tempo da complexidade de nossos quereres. Ok, não vou generalizar como sempre faço, com a intenção inconsciente — ou não — de deixar este texto mais impessoal. Dessa vez, tentarei não me ocultar de forma covarde sob os pensamentos de um personagem fictício. Esse texto é sobre mim, não sobre os outros. Por isso, vou assumir minha própria indecisão e deixar que os outro assumam as deles. Eu não sei o que quero. Eu não sei nem se quero.

    “Eu quero a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida”, disse Cazuza em certa canção. Uma fruta mordida não faz com que você crie expectativas em excesso. Uma fruta mordida é o que ela é. Você já sabe o seu gosto, o quanto de suco ela possui, o quão madura ou não ela está. Sem surpresas, sem aqueles questionamentos irritantes de “será que...?” que fazemos antes de experimentá-la.

    Eu não sei se quero a fruta mordida. Não sei se quero a fruta inteira. As vezes me encontro querendo um meio termo. Mas o que é um meio termo entre a fruta inteira e a mordida? Pra piorar, você também não sabe o que quer. Na verdade, minhas dúvidas são até mais certas que qualquer afirmação já saída de sua boca. “Vamos nos ver tal dia”, você disse. “Quero que permaneça em minha vida”, você afirmou. Você não sabe que quando se conjuga o verbo amar pra alguém a gente tende a acreditar? É que não dá pra amar em um dia e no outro ocultar esse sentimento como se fosse possível descolori-lo.

    Eu não sei o que quero. Você também não. Você acha que sabe, mas eu sei que não. E é justamente no espaço entre minhas dúvidas certas e suas certezas oscilantes que vamos regando pequenas raízes de decepções. É na falta de trocas que nasce a indiferença. É na ausência de novas linhas que o nosso texto vai se desbotando, vagarosamente, até perder completamente a cor e sumir.

        Sumir exatamente como este texto em branco que nunca será lido por ninguém.


16 março 2018

Lista do Dan: 10 políticos, juízes ou ativistas mortos na história recente do país

Dia 16 de março de 2018

O assassinato de Marielle Franco, vereadora do PSOL pelo Rio de Janeiro, colocou não apenas a segurança pública da cidade maravilhosa novamente em cheque, como colocou dúvidas à intervenção militar na capital fluminense e também à liberdade política no país.

Devido ao caso assustador, o Blog do Dan decidiu realizar uma lista de políticos, ativistas e juízes que foram mortos assassinados ou em circunstâncias, no mínimo, estranhas na história recente do nosso país. O objetivo dessa lista também é questionar: a quem a democracia que supostamente vivemos beneficia?


.: Marielle Franco :.


O mais recente crime político do país, Marielle Franco, vereadora do PSOL pelo Rio de Janeiro, foi morta na última quarta-feira (14) com quatro tiros na cabeça dentro de um veículo, onde seu motorista, Anderson Pedro Gomes, também foi atingido e morreu. Marielle era feminista e ativista dos direitos humanos. Ela recebeu 46.502 votos ao se eleger vereadora da Câmara do Rio. Natural do Complexo da Maré, era formada em sociologia pela PUC-Rio e fez mestre em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente, lutava contra a violência coordenando a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).


.: Teori Zavaski :.


O ministro do STF Teori Zavaski morreu em um acidente de avião no início de 2017. O acidente aconteceu prestes ao ministro, então relator dos processos da Lava Jato no Supremo, homologar as 77 delações da Odebrecht - até ali, o maior acordo de colaboração da operação. Esse contexto levantou dúvidas sobre uma suposta sabotagem na aeronave. Suposição, inclusive, não descartada pelo também advogado Francisco Zavaski, filho de Teori.


.: Eduardo Campos :.


Mais um acidente de avião ocorreu em 2014. Desta vez, a vítima foi Eduardo Campos, então candidato à presidência pelo PSB. Até hoje, há indefinição sobre as verdadeiras causas da tragédia. Desde o acidente, tudo é conduzido sob sigilo. Na época, Eduardo Campos figurava na terceira colocação na disputa pela faixa presidencial.


.: Patrícia Acioli :.


A juíza Patrícia Acioli foi assassinada com 21 tiros em 2011 em uma emboscada, na frente de sua casa na cidade de Niterói-RJ. Ela estava em uma lista de doze pessoas marcadas pra morrer. Segundo o que foi apurado pelas investigações, que foram conduzidas pelo Delegado Felipe Ettore e o Comissário José Carlos Guimarães da Divisão de Homicídios do Estado do Rio de Janeiro, o assassinato de Patrícia foi cometido por policiais militares insatisfeitos com sua atuação em relação a um grupo de agentes que atuava na cidade de São Gonçalo praticando homicídios e extorsões.Em abril de 2014, todos os onze policiais julgados no caso foram condenados pela Justiça.



.: Dorothy Stang :.


A missionária norte-americana Dorothy Stang foi assassinada em 2005 em Anapu, oeste do Pará, com três tiros em uma emboscada. Dorothy era missionária da Pastoral da Terra e comandava o Projeto de Desenvolvimento Sustentado dentro de uma área autorizada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A freira trabalhava na região há pelo menos 20 anos e, segundo a Radiobrás, lutava contra os grileiros da região. Três pistoleiros foram condenados pela morte de Stang.



.: Celso Daniel :.



O então prefeito de Santo André-SP Celso Daniel (PT) foi sequestrado e morto em 2002, após sair de um restaurante. Sete pessoas ligadas ao crime morreram em circunstâncias misteriosas, entre acusados, testemunhas, um agente funerário, um investigador e o legista do caso. Para a polícia, Celso Daniel foi vítima de crime comum: extorsão mediante sequestro, seguido de morte. Para a família e muitos militantes, o crime teve caráter político.


.: Antônio da Costa Santos (Toninho) :.


O prefeito eleito em Campinas pelo PT nas Eleições de 2000 foi assassinado a tiros na noite do dia 10 de setembro de 2001, quando seguia de carro para o apartamento onde vivia, que fica a um quilômetro de onde ocorreu o crime. A família acredita se tratar de um crime político e, em 2006, a Justiça pediu para que essa hipótese fosse investigada. No entanto, a Polícia Civil e o Ministério Público nunca trabalharam com essa ideia.


.: Assassinatos em Magé (RJ) :.



Dessa vez não falaremos de um assassinato, mas sim de vários ocorridos na cidade carioca de Magé. Ela ostenta o nada honroso título de campeã brasileira da violência política, com nove políticos e parentes deles assassinados desde 1997. No caso mais chocante, a então vice-prefeita pelo PSDB, Lídia Menezes (foto), foi torturada e morta com três tiros, em junho de 2002. O carro dela chegou a ser incendiado. Na mesma cidade foram assassinados a tiros por pistoleiros o vereador Alexândre Alcântara (PSC), a mãe e o motorista. O então presidente da Câmara, Genivaldo Ferreira Nogueira, o Batata, respondeu a júri popular como suposto mandante em 1998.

Em abril de 2012 foi a vez do vereador Antonio Carlos Pereira (PMDB), o Tunico Pescador, ser executado. Em 2006, morreu Carlos Alberto do Carmo Souto, o Chuveirinho. No seu enterro, o então vereador Dejair Côrrea (PDT), ex-policial que só andava armado, disse que os colegas se questionavam quem seria a próxima vítima. A resposta veio um ano depois: foi ele próprio, morto com tiros nas costas, sem poder usar a pistola prateada que sempre levava na cintura.


.: Feu Rosa :.



No ano de 1990 foi assassinado o então prefeiro de Serra (ES), Feu Rosa. Seu vice-prefeito, Adalto Martinelli, que assumiu o mandato após o assassinato, foi acusado em 2009 pela Justiça de ser um dos mandantes. Martinelli não chegou a ser preso, pois recorreu em segunda instância e, logo em seguida, o TJBA considerou que o crime prescreveu. Os absurdos não param por aí: outras duas pessoas também apontadas de serem os mandantes falaceram antes que o processo fosse julgado. Já os cinco acusados de executarem o crime foram assassinados.



.: Chico Mendes :.



Na noite de 22 de dezembro de 1988, o ecologista Chico Mendes, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, no Acre, foi morto a tiros de espingarda, no quintal de sua casa, por Darcy Alves da Silva, a mando de seu pai, o fazendeiro Darly Alves da Silva. Chico Mendes havia sido condecorado pela ONU no ano anterior, por sua luta em defesa do meio ambiente. O ecologista ajudou a organizar o trabalho e a resistência dos seringueiros.

Sua morte, emblemática na violência contra ativistas ambientais no Brasil, não foi o suficiente para diminuir os números: o país é o líder no assassinato de ativistas ambientais no mundo todo.



19 setembro 2017

Cerá? (ou uma doença para chamar de minha)

Dia 19 de setembro de 2017


Foi pouco mais de um mês de demora entre a primeira vez que percebi os sintomas e o diagnóstico médico. Percebi no cinema. Era dia dos pais e fomos em família assistir a um filme em 3D. Por algum motivo que não sei ao certo qual - infantilidade minha, desconfio eu haha - eu decidi testar como ficaria a visão com o óculos do cinema caso eu fechasse um dos olhos. Fechei o olho esquerdo. Visão perfeita. Fechei o olho direito. Tudo embaçado. Lembro-me de ter pensado que não fazia muito sentido enxergar bem com um e não com o outro. Continuei assistindo ao filme.

Antes que me perguntem, assistimos ao "Planeta dos Macacos - A Guerra". Um filme não mais que bom, apesar da história bacana e cenas com efeitos surpreendentes. Mas surpresa maior mesmo eu tive ao sair da sessão. Ao repetir o teste que havia feito - dessa vez sem os óculos 3D - o olho esquerdo continuava embaçado. O problema não era a tecnologia 3D, mas sim a "tecnologia" da minha visão. Algo estava errado.

Consegui agendar consulta com uma oftalmo para três dias depois. Antes disso, fiz um teste de acuidade visual num posto de saúde próximo do trabalho. Sabem aquele teste para olhar a direção em que a letra E está, e que nós achamos absolutamente idiota? Pois é. Eu só conseguia responder a direção da letra na primeira fileira, a maior de todas. Nas outras, quando só meu olho esquerdo estava aberto, era impossível. Se aquilo fosse uma prova, eu estaria reprovado com louvor. Confesso que nesse momento bateu um certo desespero.

Dias depois, já na consulta, a médica me disse que eu tinha quase 6 graus de miopia e astigmatismo. Isso era uma imensidão para alguém que nunca precisou usar óculos. Mais um indício de que não era apenas um desgaste natural, e sim algo mais grave. Aquele dia foi a primeira vez que ouvi uma palavra que irá me acompanhar, provavelmente, para o resto da minha vida: ceratocone. Ela me pediu alguns exames para comprovar suas suspeitas.

Jamais tinha ouvido falar dessa tal ceratocone. Antes mesmo de chegar em casa, já havia dado um google, na esperança de que fosse algo simples. Mas ao contrário disso, as primeiras palavras que li sobre ela foram "doença degenerativa". Confesso: li como se tivesse tomado um soco. Descobri que é difícil ser otimista logo após receber tal notícia do doutor Google.

Fiquei uns dias triste? Fiquei. Preocupado? Fiquei. Mas continuei minhas pesquisas. E, aos poucos, com a ajuda da mesma internet que tinha me feito ler a bombástica palavra "degenerativa", fui desmistificando a doença. Quando recebi o resultado do exame, eu já estava até familiarizado com as causas e possíveis tratamentos.

Ceratocone é sim uma doença degenerativa que deforma a córnea do olho, podendo atingir até mesmo os dois olhos - no meu caso, está só no esquerdo. A córnea, por sua vez, é uma espécie de película que cobre a parte externa do globo ocular. O ceratocone deforma o ângulo da córnea, causando embaçamento e, consequentemente, a perda da acuidade visual. Isso, claro, segundo os meus conhecimentos em oftalmologia, após um mês de estudos intensos na universidade chamada internet.

Apesar de degenerativa, ela tem tratamento: óculos, colírio, lentes especiais, cirurgia ou,em último caso, transplante de córnea. A certeza até o momento é a de que para o resto da minha vida eu precisarei ter um oftalmologista para chamar de meu. Preferencialmente um que seja especialista em córnea. Adoro segmentações.

Em resumo: Poderia ser pior, mas não é (que Murphy não me ouça). Apesar de ser algo que me seguirá, provavelmente, para o resto da vida, eu não ficarei cego e é possível que recupere parte da visão perdida.

Mas sejamos realistas: apesar da sensação verdadeira de que "não é o fim do mundo", toda doença crônica causa uma alteração na percepção que temos sobre o mundo. Sabe aqueles filmes em que os personagens só realizam uma mudança na vida após a descoberta de uma enfermidade? Pois é. Esse efeito existe. A gente percebe de forma mais claro o quanto protelamos alguns dos nossos objetivos com desculpas de falta de tempo ou até mesmo por pura preguiça.

Uma das mudanças foi tive iniciar a escrita de um livro chamado "A Rainha de Gesso", que está sendo publicado no Wattpad. Sim, escrevi todo esse texto emocionante apenas para divulgar um trabalho meu, porque afinal de contas a propaganda é a alma do negócio haha. Brincadeiras à parte, é a velha história do não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje. A sensação de impotência diante de alguns eventos podem trazer alguns pontos benéficos. Vai muito de como você lida com eles.

Se você está lendo essa postagem porque seu médico suspeita de ceratocone ou acabou de ser diagnosticado com a doença, não se desespere. Você não deixará de ver todas as cores do mundo. Talvez essas cores que você vê acabem se tornando ainda mais bonitas a partir de agora. A gente valoriza ainda mais o que tem quando a possibilidade de perdê-las fica mais evidente.

E, como não poderia faltar, quem quiser conferir o livro "A Rainha de Gesso", confira gratuitamente no link abaixo.

https://www.wattpad.com/468890606-a-rainha-de-gesso-cap%C3%ADtulo-1


SINOPSE

Nascida em um vilarejo pobre, Jordana Modeste está vivendo um sonho: convive bem próxima da realeza, sendo a dama de companhia da princesa - posição de prestígio na corte - e tendo boa relação com o rei. Apesar disso, não é vista com bons olhos por alguns membros da nobreza, ainda mais depois de ter engravidado solteira em uma sociedade tão tradicional.

Em uma noite de festas no Reino de Torim, ela escuta que o rei estaria ferido e desmaiado no estábulo. A princesa e sua prima correm para lá. Jordana também se dirige para o local, sem conseguir acompanhar o ritmo das duas. Quando se aproximava do lugar, Jordana ouve um estrondo seguido de uma forte luz: o estábulo havia explodido.

Esse incidente seria o início de uma perigosa disputa pela coroa.

26 junho 2017

Pensamentos de um mochileiro: Chile, Bolívia e Peru (Parte 3)

HOMENS VOAM?

Dia 26 de junho de 2017

Era o segundo ou terceiro dia de viagem. Eu estava deitado na cama do meio de uma treliche de um charmoso hostel de Santiago chamado Chile Lindo. Nada mais justo. O Chile é realmente lindo. Há quantos Chiles para se conhecer?
Foi lá, no país de Violeta Parra, a primeira parada de uma viagem que durou 21 dias. Pegamos o avião de São Paulo, fizemos escala no Rio de Janeiro com uma espera de 8 horas, e da cidade maravilhosa voamos para Santiago. Sim, meus caros, homens voam. E de lá de cima a Cordilheira dos Andes nos recebeu, mostrando toda a sua imponência e extensão. A tão temida turbulência no avião próxima das Cordilheiras não aconteceu. Chegamos sãos e salvos ao aeroporto da capital chilena.

Por falar em altura, como não lembrar da nossa visita ao arranha céu mais alto da América Latina, o Sky Costanera? São 62 andares, num total de 300 metros de altura. De lá de cima, tudo fica pequeno, como se fossem miniaturas. Ficamos por provavelmente mais de uma hora admirando a paisagem como se estivéssemos plainando pelo céu. Se homens voam? Eu estava voando.
Nesta viagem foi possível, inclusive, voar em solo. Na segunda semana estávamos na Bolívia, em um dos lugares mais incríveis que já estive em toda minha vida: o passeio de três dias ao Salar Uyuni, o maior deserto de sal do mundo. O passeio, totalmente feito sob quatro rodas, me deixou, por muitas vezes, nas nuvens e por vários motivos. As paisagens eram incríveis. Um lugar realmente único. Muitas formações rochosas, lagos de várias cores, geisers, banho termal, desertos infinitos. E, além de tudo, estávamos voando. Naquele passeio chegamos a 5 mil metros de altitude. Não sem mascar várias folhas de coca. Voar tão alto, ainda que por solo, deixa o ar rarefeito. E a folha de coca ajuda muito. Voávamos novamente.




Não há como descrever apenas com palavras o quanto uma viagem como esta pode mudar quem você é. Mas posso dizer que viagens como esta estão mais perto do que você imagina. Por vinte e um dias eu voei. Voei fisicamente por meio de aviões, mas o maior voo foi simbólico. E se você tem vontade, faça acontecer. Voe. Porque homens voam. E eu não tenho dúvidas disso.


Voltando à treliche do hostel Chile Lindo. Como disse, era o segundo ou terceiro dia da viagem. Eu havia andado muito, e o cansaço me fez dormir ainda que uma festa estivesse rolando no local. A festa acabou e os hóspedes já estavam indo para suas camas. Incluindo um mexicano, extremamente bêbado, que iria dormir na cama de cima da minha treliche. Ele subiu, não sem dificuldades. Minutos depois, sabe-se lá por qual motivo, tentou descer. Esse foi seu maior erro. Em plena madrugada, um barulho. O mexicano caiu do alto da treliche, indo de encontro ao chão. Todos acordaram. Pude ouvir ao menos três idiomas sendo falados ao mesmo tempo, por pessoas de vários países perguntando se ele estava bem. Por sorte, o mexicano não se machucou. Porém, nesse momento cheguei à seguinte conclusão: homens voam, mas nem sempre.




----------------------------------------------------

Confiram também a Parte 1 e Parte 2 da série "Pensamentos de um Mochileiro: Chile, Bolívia e Peru"

20 junho 2017

A postagem que não é 2

Dia 20 de junho de 2017


Eu não tenho nada a acrescentar a quem ler a esta postagem.

Esta postagem não usará de uma linguagem sofisticada ou revolucionária. Ela não preencherá o vazio de sua existência. Você não se lembrará dela daqui há dois dias.

Essa postagem não é arte. Sequer é literatura. É o oposto da poesia, da prosa e da crônica. Esta postagem é uma anomalia. Não a leia.

Não é poesia para recitar. Não é verso para declamar. Não é gostosa de ouvir. Não rima. Soa torta. Não é sequer dadá. Este texto - se é que podemos chamá-lo assim - não será objeto de análise. É a perda do seu tempo, é a abstração de tudo o que é inútil, é a personificação do vazio.

De tudo o que ela é, não se tiraria sequer uma linha. A sua imensidão está em tudo o que ela nega. O contrário do que existe. Tudo o que sei sobre essa postagem é que ela não é. E por que haveria de ser?

26 maio 2017

Realeza Canibal

Dia 25 de maio de 2017

O Rei 1 sofreu um golpe. Eram poucos os plebeus que ainda o apoiava. Faltava-lhe eficiência e inteligência. A plebe não estava contente.

Apesar disso, o golpe não foi uma iniciativa popular, mas orquestrado pelos reis 2, 3 e 4. Ainda que suas diferenças fossem grandes e seus egos equivalentes, se uniram pela máxima "o inimigo do meu inimigo é meu amigo". Inimigo derrotado, sobrou apenas as diferenças. 

Ocupados em resolver suas diferenças, foi o Rei 5 - que ainda não tinha entrado na história - quem ascendeu ao poder, aproveitando-se do vácuo momentâneo. Apesar disso, os Reis 2, 3 e 4 ainda comandavam todo o sistema. O Rei 5 era decorativo. Só ele não sabia disso.

O sistema dos novos reis era mais impositivo que o antecessor. Faltava diálogo, sobrava ordens. A plebe, que já não estava feliz anteriormente, sentia-se cada vez mais fora do jogo. Os outros mandavam e a eles só restava obedecer.


Foi então que se uniram. Democraticamente, lutaram pelos seus direitos. Não queimaram prédios, não fizeram greve, não ergueram bandeiras. Apenas reclamaram ao Rei 5 por mais direitos. E nada mudou. Num sistema onde o diálogo não é considerado, a luta pelo viés democrático é ineficaz.

Porém, ao mesmo tempo em que a plebe lutava em vão por seus direitos, as diferenças entre os reis ficava cada vez mais evidente. 

O Rei 5 ainda estava iludido pelo cargo ilusório que lhe foi conferido. Os  Rei 2 jogava contra o Rei 3 e o Rei 5, e achava que tinha apoio do Rei 4. Mas o Rei 4 não apoiava ninguém, apenas a ele. O Rei 3, por sua vez, fazia movimentos contra o 2 e o 5.

A plebe percebeu que não estava fora do jogo. Eles só estavam sãos. Ao contrário dos Reis. Estes cegos, insanos, loucos e canibais.

A plebe, ainda sofrida, decidiu apenas assistir. Assistiam ao lento e vergonhoso declínio dos Reis. Não havia torcida por nenhum deles. Apenas o desejo masoquista de ver a realeza canibal sangrar. E a cada gota de sangue azul derramada, um sorriso plebeu se abria. A sanidade tem seu preço. A insanidade também.

01 março 2017

Pintaram tudo de cinza

Dia 1° de março de 2017

Aqui aconteceu um carnaval. Eu juro! Havia um carnaval aqui!

Eu sei, é difícil de acreditar. Não consigo lhe dizer onde estão todos, mas isso aqui estava lotado, meu senhor. Estou lhe falando... isso aqui estava abarrotado de gente.

Não, meu senhor. Estavam todos felizes. Quase todos, pelo menos. Claro que deve ter acontecido um ou outro problema, uma ou outra briga. Mas, assim, no geral, a regra era dançar, beijar, beber e se divertir.

Dá, dá pra reconhecer os foliões pela roupa sim. O que? Se eles usavam algum tipo de uniforme? É sério que o senhor não conhece o carnaval? Não, me desculpe... não quis dizer isso. Concordo, ninguém é obrigado a conhecer o carnaval. Não quis lhe ofender. Mas, assim... uniforme ninguém usava não. A regra da roupa era bem ao contrário da de um uniforme, sabe? Tem alguma palavra que seja o contrário de uniforme? Poi é, eu também não conheço. Mas se houver, isso seria uma boa definição da roupa deles.

Se era cinza? Não, não. Era tudo bem colorido. Por isso o meu espanto, entende? Não sei quem vandalizou a cidade. Juro que não fui eu. Por mim ainda estaria tudo colorido.

Eu tô é frustrado. Eu achava que não ia acabar, sabe? Desde sexta-feira que todo mundo se diverte. Isso mesmo, eu não tô maluco não, meu senhor! Foi sexta, sábado, domingo, segunda, terça... aí hoje eu saio pra rua super empolgado, e nada. Quase saí pra rua de saia, senhor acredita? Imagina o vexame.


Não, né! É claro que não uso saia no meu dia-a-dia. Mas é que assim... quando tem homem de saia em todo canto, usar ela parece normal, entende? É como na Escócia. O senhor sabe que lá os homens usam saia como se fosse calça jeans, não sabe? Pois, então. Homem usar saia foi normal por cinco dias aqui. Eu juro! Mas agora tô vendo que não é normal mais não. Não sei também quem proibiu o uso dela hoje. Mas, pelo visto, tá proibido sim. Só mulheres podem usar saia agora. Ou tá vendo algum homem usando uma? Tô achando que quase tudo tá proibido de novo. Homem de saia, mulher de roupa curta, faltar do trabalho, ouvir música alta, ser feliz. Mas o que mais me deixou chateado foi a proibição das cores. Sinceramente? Nunca vi uma quarta-feira tão cinza. Não sei quem terminou o carnaval, mas peço que o senhor, seu guarda, prenda o responsável por vandalizar nossa alegria.

29 janeiro 2017

Pensamentos de um mochileiro: Chile, Bolívia e Peru (Parte 2)

O DIA EM QUE OS INCAS VENCERAM OS ESPANHÓIS

Dia 29 de janeiro de 2017

Quem me conhece sabe o quanto sou apaixonado por xadrez. Não necessariamente pelo jogo em si. Claro que ele é interessante. Eu é que não sou um bom jogador. Me atraio na verdade por suas peças. É impossível não parar em frente às lojas de tabacarias de shopping centers sem olhar para aqueles tabuleiros dos mais variados formatos e materiais, um mais lindo que o outro, um mais caro que o outro. E eu sempre sem dinheiro mas sempre repetindo mentalmente: um dia compro um desses!

Eu acredito muito em energias e no poder que elas têm em nossas vidas.Comprar um xadrez desses bem estilizados era um pensamento que eu tinha já há algum tempo. Já a viagem para o Chile, Bolívia e Peru, não. Ela se tornou um sonho para mim durante a própria viagem. Nos vendem Europa e EUA como que jogos de xadrez feitos de cristal em vitrines de tabacarias. Esses locais são, provavelmente, lindos. Um dia hei de visitá-los, assim como um dia terei delicados e belos reis, rainhas e peões de cristal expostos em minha mesa de jantar. Mas, assim como não existem apenas jogos de xadrez em cristal, também não existe apenas o chamado "primeiro mundo" para se visitar.

Santiago - Chile
O Chile, minha primeira parada, foi uma grata surpresa. Sua capital Santiago é sete vezes maior que Campinas, e, ao mesmo tempo, sete vezes menos insana. Claro que a cidade que o turista enxerga nunca é a mesma cidade dos moradores do local. Mas o stress de lá é, aparentemente, menos estressante. No horário de pico o trânsito anda. No metrô, quando cheio, as pessoas esperavam o próximo ao invés de se acotovelarem. As notas de dinheiro, sempre com quatro dígitos ou mais, nos dá a sensação sempre falsa de ter mais dinheiro do que realmente temos. isso, claro, até a primeira compra, sempre de, no mínimo, três dígitos. O tempo, seco, é o oposto de seu povo, acolhedor. As paisagens possuem neve, deserto, montanhas, praias, frio e calor. É possível conhecer um Chile por dia.
Salar Uyuni - Bolívia
A Bolívia possui o Salar Uyuni. Apenas por essa paisagem o passeio todo já valeu a pena. Existem outros belos lugares  no país, como as lagunas, os geysers, as ilhas e o Lago Titicaca. Mas nenhum outro se compara à visão mágica do céu se espelhando no chão. Além de Uyuni, outras cidades visitadas por nós foi La Paz e Copacabana. A primeira tem seu charme, mas a combinação altitude, poluição e falta de árvores não me fez bem. A segunda nos fez sentir em casa, não só pelo nome familiar, mas também pela bela paisagem do maior lago navegável do mundo, o Titicaca. A Bolívia no geral é um país peculiar. Eles mantém suas raízes bastante fortes, seja na música, nas vestimentas ou na forma quase improvisada que algumas coisas funcionam. Dos três, foi na Bolívia onde o choque cultural realmente apareceu. E, com o diferente, as comparações com seu país de origem e até mesmo os preconceitos aparecem de forma involuntária. Julgamentos sobre beleza física daqueles com o fenótipo do qual não estamos acostumados vem à tona. O questionamento se nossa bagagem colocada no ônibus sem identificação irá estar no mesmo lugar ao final da viagem aparece. O medo do barco aparentemente não tão seguro naufragar também surge. E, no final, tudo funcionou, ainda que num processo e com procedimentos diferentes do que seria em nosso país. Outra coisa curiosa é que no país de Evo Morales cagar é um desafio. Há um verdadeiro comércio de banheiros imundos e sem torneiras ou papel higiênico pelas cidades. Paga-se um ou dois bolivianos (aproximadamente de R$0,50 a R$ 1,00) para entrar neles. A dica é levar seu próprio rolo e um álcool em gel. Não tenha dúvidas de que eles serão de grande utilidade.

Ilha Taquile - Peru
Por fim, o Peru foi uma grata surpresa. Mais precisamente a cidade de Puno, a única do país que visitamos, mas certamente não será a última. Além de experiências inesquecíveis nas visitas que fizemos nas ilhas peruanas do Titicaca, a cidade nos recebeu com uma festa que nos lembrou bastante o carnaval de rua brasileiro. Além disso, outra grata surpresa foi encontrar e comprar o meu suvenir preferido de toda essa viagem: um jogo de xadrez com peças que faziam referência às tropas espanholas e aos guerreiros incas. Por uma grana bem menor do que nas tabacarias brasileiras, hoje tenho um jogo para expor em minha casa. Não em cristal, mas em madeira. E, mais do que um xadrez belo mas ordinário, toda vez que olho para ele me lembro dos 20 dias em que vivi uma das experiências mais inesquecíveis da minha vida. A primeira batalha ocorreu ainda em Puno. Mudando a história, o exército inca se saiu vencedor. Para minha sorte, o Rafael, meu oponente, é um jogador mais fraco que eu. Azar para os espanhóis. Mas, melhor do que mudar a história, foi ver um pouco do resultado da história nesses três belos, diferentes e exóticos países de nosso continente.

Jogo de xadrez Incas x Espanhois
Outros Textos:

Parte 1

28 janeiro 2017

Pensamentos de um mochileiro: Chile, Bolívia e Peru (Parte 1)

Países visitados: Chile, Bolívia e Peru
Duração da viagem: 20 dias
Integrantes do mochilão: Eu (Danilo) e Rafael
Idiomas falados na viagem: Português, Portuñol (Português + Espanhol), Portuliano (Português + Italiano) e Inglês
Tempo de planejamento: aproximadamente 3 meses
Tipos de lugares visitados: Cidades grandes e urbanas, cidades pequenas, lagos, rios, deserto, montanhas, geysers, águas termais, ilhas e tribos
É preciso ser rico para viajar: NÃO!


PRAZER, DESERTO

Dia 28 de janeiro de 2017


Era o sétimo dia de viagem. Mas lá, ao contrário dos outros tantos momentos incríveis que já tive o privilégio de viver, as horas passavam devagar. Talvez fosse devido à paisagem quase monocromática que eu via há provavelmente mais de 10 horas seguidas pelas janelas do ônibus. Um marrom quase alaranjado. Ora montanhas, outrora nem isso. Sem sinal algum dos verdes tão visíveis das terras tupiniquins. Era uma paisagem muito diferente daquela que estive acostumado a enxergar no Brasil. Mas não era de forma alguma uma visão intimidadora ou tediosa. Aquela paisagem não fez com que eu me sentisse um forasteiro. Ao contrário. Uma estranha sensação de pertencimento me atingia. O deserto do Atacama, localizado na parte norte do Chile e, até então, um completo desconhecido para mim, me recebia de braços abertos. Isso, claro, considerando a terra quase infinita e um Sol intenso como um grande afago de ternura. E era. Ao menos para mim.

Ao meu lado, Rafael dormia. Eu, sentado na poltrona próxima da janela, ouvia músicas enquanto olhava para a imensidão do deserto, quase como numa meditação. De repente, o modo aleatório do meu playlist me tirou do transe num dos momentos mais simbólicos de toda a viagem.

"Gracias a la vida que me ha dado tanto..."                 (Graças à vida que me deu tanto)

A argentina Mercedes Sosa invadia meus ouvidos, cantando a música mais emblemática de uma das maiores compositoras folclóricas da América Latina: a chilena Violeta Parra. 

"Me dio dos luceros que cuando los abro                     (Me deu dois olhos que quando os abro
Perfecto distingo lo negro del blanco..."                      Distingo perfeitamente o preto do branco...)

Nesse momento me senti latino, algo tão distante de nós, brasileiros. Ainda que ouvindo uma música de um idioma que não é o meu, e que não domino, eu também pertencia àquele lugar.

"(...)Gracias a la vida que me ha dado tanto              ((...) Graças à vida que me deu tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario                        Me deu o som e o abecedário 
Con él, las palabras que pienso y declaro                  Com ele, as palavras que penso e declaro
Madre, amigo, hermano                                             Mãe, amigo, irmão
Y luz alumbrando la ruta del alma del que                E luz clareando o caminho da alma de quem 
estoy amando"                                                            estou amando)

Em pleno Atacama, uma lágrima teimou a descer dos meus olhos, como se uma gota pudesse umedecer o deserto mais árido do mundo. Mas aquela paisagem, somada à trilha sonora perfeita e uma sensação de liberdade foi uma das sensações mais fortes que já havia sentido.

"Minha casa está presa à vários balões, sendo possível tornar o meu lar em qualquer lugar" (Gabriel Feitosa)
Valle de la Luna

Dentro do ônibus se falava vários idiomas. Estranhamente, como eu e Rafael pudemos constatar e como virou quase uma regra em todos os três países que visitamos, havia turistas brancos de todas as formas e cores. Negros quase inexistentes. Dentre os de pele clara, um casal de japonês bastante exótico. Curiosamente, o ônibus foi o primeiro lugar que os encontramos. Mas não o último. Durante  todo o resto do nosso percurso pelo Chile e praticamente toda nossa vigem pela Bolívia, nós sempre cruzávamos com esse casal. É impressionante como viagens proporcionam encontros anônimos. Nunca trocamos uma palavra com eles. Não sabemos seus nomes, se realmente são japoneses ou de algum outro país oriental. E nunca descobriremos. Mas compartilhamos os mesmos ambientes e as mesmas paisagens.

Conheci tanta gente de tantos lugares, pessoas que se tornaram amigos verdadeiros ainda que por apenas alguns dias, e que nem barreira do idioma e nem a barreira cultural impediram de haver mais que comunicação, empatia. Certamente, quem faz guerra nunca viajou. Por isso, a arte e a viagem são as duas coisas mais próximas do humano que eu, humano, conheço. São  linguagens universais. Talvez existam outras. E, se existir, me falem.

Nas próximas semanas escreverei aqui no blog o roteiro exato da viagem, como alguns vem me pedindo. Roteiro em ordem cronológica, e não um texto que já se inicia falando sobre o sétimo dia de viagem. Mas as sensações são tão voláteis e inexatas, que achei que a urgência maior era essa. Mais que músicas, trilhas sonoras para sua viagem. Mais que lugares, sentimentos. Mais que culinárias, paladar.  Afinal, literatura combina tão bem com viagens, não é mesmo?

29 novembro 2016

A tragédia pontual e a tragédia cotidiana

Dia 29 de novembro de 2016

O Brasil, assim como o futebol mundial, está de luto. A queda do avião que levava a delegação da equipe da Chapecoense tirou a vida de jogadores, membros da comissão técnica, da equipe de voo, de jornalistas e de convidados. Sobre este fato, nada mais pode ser acrescentado por esta página a não ser o nosso lamento profundo à todas as vítimas e aos familiares que sofreram a perda. Uma grande tragédia pontual que, assim como outras, causou e causa grande comoção em todos nós.

Há uma grande diferença entre este tipo de tragédia com as do nosso cotidiano. Milhares de pessoas morrem diariamente devido à vários motivos, incluindo algumas tragédias sociais, como fome e violência. A morte, num sentido filosófico, é a mesma. Mas por que, então, uma ganha manchetes e a outra não?

Não podemos desconsiderar que a mídia pauta nossas conversas. Tragédias que envolvem jogadores, artistas, apresentadores e outros agentes midiáticos repercutem porque eles entram em nossa casa, conversam conosco através das várias plataformas e nos criam empatia. Sua morte inesperada nos causa emoções. A tragédia cotidiana é diferente. Só conseguimos vê-la se a percebermos; não são mortes lidas com emoção, mas sim com a razão. E, é claro, há sempre o interesse de que ela não seja percebida por nós. A cotidiana faz parte do status quo; a outra, é um ponto fora da curva.

Hoje, no dia do acidente aéreo que vitimou cerca de 75 pessoas, vi algumas pessoas postando em suas redes sociais sobre a ausência de postagens homenageando as vítimas das tragédias cotidianas, ao invés de apenas textos e imagens da tragédia da Chapecoense. É preciso entender que somos seres emocionais, não somente racionais. Não é só a televisão ou a mídia que causa essa comoção. Cada membro da grande massa - onde, obviamente, estou incluído - que já viajou de avião pensa consigo mesmo que poderia ter sido ele. A grande massa que gosta de futebol pensa que "poderia ser meu time". As pessoas que, assim como eu, são formadas em jornalismo, também têm esse pensamento. Quantos lados e visões individuais desse mesmo fato? Acidentes comovem também porque nos tiram da zona de conforto e nos fazem pensar a respeito do maior tabu da humanidade: a morte, a sua e a do outro.

As críticas à essa comoção em massa podem ser lógicas até certo ponto, mas talvez a lógica não caiba em todos os momentos da vida. A dor é de cada um. Pensar nos problemas estruturais e sociais da humanidade não te impede de ter empatia com esse acidente aéreo, com as histórias individuais dessas vítimas e a  história do time de futebol que surgiu do nada e conquistou a América do Sul. E, no caso contrário, se comover com essa tragédia não te impede de hoje, amanhã ou na próxima semana visitar uma ONG, um hospital, ou ser voluntário em algum projeto social. Se você já faz isso, parabéns! Se não faz, mas critica o outro que se comoveu com o acidente, amanhã é um novo dia para abandonar a hipocrisia. E é sempre bom lembrar que Facebook e redes sociais não mudam o mundo.

Emoções são subjetivas, logo imensuráveis. Lamentamos tragédias pontuais como esta  porque elas têm rostos, vídeos e mídia. Já em relação às tragédias cotidianas, ainda que houvesse - e, às vezes, há - rostos, vídeos e mídia, o que verdadeiramente importa é a nossa ação. O primeiro é uma tragédia de fato. O outro, um problema estrutural, que não se modificará com longos e rasos textos de Facebook. Ao que não pode ser transformado, como é o caso desse acidente, nos resta um respeitoso luto. Ao que deve ser transformado, nos resta a ação. Só as nossas atitudes transformam o mundo. 

26 novembro 2016

Apesar de oscilante, 3%, da Netflix, é uma evolução para séries de ficção científica do Brasil

Dia 26 de novembro de 2016


Eu esperei por muito tempo para assistir ao 3%. Mais precisamente 5 anos. Para quem não sabe, antes de ser lançada pelo Netflix, a nova série de ficção científica brasileira foi lançada de forma independente no YouTube e, desde então, atraído a atenção dos internautas, com aproximadamente 650 mil visualizações na plataforma. Porém, sem recursos, parou no terceiro episódio. E, desde então, o criador Pedro Aguilera tentou suporte financeiro para a realização completa dessa história promissora. Até a Netflix comprar a ideia.

A história se passa num mundo pós-apocalíptico, onde 97% da população vive na extrema pobreza em um lugar conhecido popularmente como o "lado de cá". Já o restante, a elite da sociedade, moram na lendária Maralto, o "lado de lá", onde, supostamente, existe apenas bonança, felicidade e alta tecnologia. Para a massa excluída há apenas uma esperança para viver no "lado de lá": participar e vencer o processo de seleção. Todos eles, ao completarem 20 anos, podem se inscrever, mas apenas 3% deles conseguem a tão sonhada mudança de vida, abandonando todo o seu passado para uma "vida melhor". Aos perdedores, a certeza de que nada mudará.

A primeira ótima sensação que tive foi ver uma série com essa temática com uma qualidade de fotografia e edição comparável às produções de fora, e atores, conhecidos ou não do grande público, falando completamente em português em uma série da Netflix. Em um segundo momento, a trilha sonora é uma grata surpresa, em especial no início do terceiro episódio, quando começa a tocar "Mulher do fim do mundo", da insuperável Elza Soares. E, por fim, num terceiro, quando você percebe que os desafios pelos quais os personagens são submetidos, por mais estranhos e surreais que se pareçam, são apenas hipérboles dos nossos próprios desafios cotidianos, como entrevistas de emprego ou obrigações sociais.

O roteiro, intrigante, possui personagens com várias camadas. A fotografia, já mencionada antes, merece todo reconhecimento. Outro destaque é a grande diversidade de atores, com homens e  mulheres, negros, brancos e orientais, além de um personagem cadeirante Fernando (Michel Gomes) como um dos protagonistas. Além de Gomes, vale destacar também as atuações de Bianda Comparato (Michele), da fantástica Vaneza Oliveira (Joana) e também da presença marcante de Viviane Porto (Aline).

Entretanto, não espere por uma série perfeita. As superproduções da Netflix estão anos-luz à frente de sua irmã brasileira no que se diz respeito à estrutura, especialmente em relação à cenários, já que o futuro de alta tecnologia, por muitas vezes, não parece tão futurístico assim. Mas há de se reconhecer que eles conseguiram, de forma criativa, ao menos amenizar esse problema.

O pecado da série seja, talvez, a forma caricatural como algumas coisas são mostradas. A pobreza do "lado de cá" é um tanto forçada, especialmente quando se repara nos figurinos dos figurantes, quase todos remendados de forma pouco convincente e com cores excessivas. O elenco também tem seus problemas. Alguns figurantes não possuem naturalidade em frente às câmeras. O ator João Miguel (Ezequiel) tem atuações oscilantes, e, por vezes, não convence tanto como o líder do processo. Já Rodolfo Valente, que interpreta o personagem Rafael, começa a série de forma um pouco forçada (talvez até mais por culpa do roteiro que por sua própria atuação), mas se recupera a medida que seu personagem vai ganhando mais complexidade. E, com oito episódios, o 5º, sobre o passado de Ezequiel, é bastante arrastado.

Apesar das oscilações, 3% termina muito bem, além de ser uma série que consegue dialogar com o público, especialmente nos 3 episódios finais, e tem como mérito nos fazer pensar a respeito de nossa própria realidade, em especial sobre a política, religião, status quo e, principalmente, a tão amada e odiada meritocracia.

O grande mérito de 3% é ter grandes chances de conseguir o que a global Supermax não alcançou: um futuro promissor.

16 setembro 2016

Hoje me reconheci feliz

Dia 16 de setembro de 2016

Hoje me reconheci feliz
logo após ter visto a tristeza naquele homem que há tanto tempo não via.

Hoje me reconheci feliz.
Seus olhos estavam fundos, perdidos, sem vida e cansados.

Hoje me reconheci feliz.
Sua pele queimada e manchada, e a postura curvada de quem parece ter todo o peso no mundo em seus ombros.

Hoje me reconheci feliz.
Ele parecia estar voltando de um trabalho que não gosta, para uma casa que não chama de lar, para uma família que não escolheria como sua.

Hoje me reconheci feliz.
De alguma forma, aquele corpo semi-morto, ao cruzar meu caminho por acaso, me fez reconhecer a minha própria felicidade. Uma felicidade que, de tão rotineira, se fez tímida.

Hoje me reconheci feliz.

09 setembro 2016

Analisamos o figurino de Michel Temer na cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos

Dia 9 de setembro de 2016


A presença do presidente interino Michel Temer na cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos ecoou dentro do Maracanã. Uma mensagem direta foi transmitida a todos os presentes e a todos os  espectadores por seu figurino.

O terno puxado para um tom escuro de um azul sóbrio, mostra que o novo comandante da nação não bebeu para comparecer à cerimônia. Assinado por algum estilista que nunca saberemos o nome, ele estava muito bem alinhado a seu corpo não-curvilíneo.

A escolha pelo terno de cor uniforme faz uma alusão à situação econômica do povo brasileiro, já que, assim como a vestimenta, os brasileiros também estão lisos. Nossos analistas de moda nos informaram que mensagens tão diretas como esta são capazes de trazer uma identificação rápida com a população média do país. As vaias que ecoaram não foram direcionadas para Temer, mas sim uma autocrítica dos próprios brasileiros em relação a sua histórica cultura de não trabalharem e só pensarem em crise.

A visível calvície, que nos fala que há ainda um vasto espaço para o país crescer, aliada aos cabelos puxados totalmente para trás, mostrando que não há mais como o país andar para trás, potencializam o discurso contra a recessão.

A camisa branca em conjunto com a gravata de um tom próximo ao rosa ou lilás é, talvez, a mensagem mais importante de todo o figurino: um pedido de paz às mulheres feministas e aos grupos LGBT's, que já se posicionaram quase em unanimidade contra seu governo. Note também que ele não utilizou em seu look nenhum detalhe em verde e amarelo, evidenciando que a partir de agora ele pretende se distanciar simbolicamente dos grupos que encabeçaram o "Fora Dilma".

Seu traje tradicional também é um aviso à economia de que em seu governo não haverá movimentos ousados, de modo que os empresários podem esperar dele atitudes mais conservadoras.

Por fim, seu discurso foi propositalmente curto, uma alusão à situação econômica do país, que sairá da recessão tão rápido quanto seu discurso de abertura das Paralimpíadas. É também uma mensagem de saúde pública, já que, pela velocidade, foi inspirada na voz da frase "Esse medicamente é contra-indicado em caso de suspeita de dengue".

Não estamos falando de um presidente. Não mesmo. Ele é um ícone da moda.


08 setembro 2016

‘A arte e o esporte são as nossas armas’, diz diretora de filme de Kosovo indicado no FESTICINI

Curta-metragem “Mona” é um dos 55 filmes de 18 países diferentes que concorrerão em 18 categorias no FESTICINI – 2° Festival Internacional de Cinema Independente

Dia 8 de setembro de 2016

Por Danilo Pessôa

O curta-metragem “Mona”, produzido em Kosovo, foi selecionado para participar do FESTICINI – 2° Festival Internacional de Cinema Independente. O filme, da diretora Lorena Sopi, concorre na categoria Melhor Música Original com outras cinco produções - duas da Espanha além de filmes do Brasil, Irã e Colômbia. O festival, que conta com um total de 55 produções de 18 países diferentes, acontece em Sumaré-SP entre os dias 16 e 30 de setembro.

Kosovo é um dos países dissidentes da antiga Iugoslávia. Independente desde 2008, ainda não é reconhecido por várias nações e entidades, como a ONU (Organização das Nações Unidas) e o próprio Brasil.
Curta metragem "Mona", da diretora Lorena Sopi


“Eu acredito que, além de nos fortalecermos como povo, moldando e resgatando nossa própria cultura e identidade, a arte e o esporte têm papel fundamental para que o mundo nos conheça e nos reconheça como uma nação. Estamos tentando abrir os olhos do público. Uma parte não sabe onde nosso país fica ou nunca ouviu falar. A outra acha que Kosovo é uma arena de guerra, um lugar onde apenas crimes, dor e terror são realidade. O mundo nunca viu o verdadeiro Kosovo ou talvez nunca quis ver o lado belo de meu país”, comentou a diretora Lorena Sopi.

Mesmo sem o reconhecimento oficial como país, a indicação de “Mona” ao FESTICINI foi a segunda vez no ano em que Kosovo conquista um lugar de destaque em terras tupiniquins. A primeira delas veio durante os Jogos Olímpicos realizados no Rio de Janeiro, quando a judoca Majlinda Kelmendi conquistou a medalha de ouro – a primeira da história do país.

O país europeu da região dos balcãs, que teve origem após se separar da Sérvia e até hoje luta por reconhecimento internacional, passa por uma instabilidade política e vive em constante ameaça de guerra com seus vizinhos.

“A arte e o esporte são nossas armas. Temos cantores mundialmente famosos, como Rita Ora, Bebe Rexha e Due Lipa. Escritores tão famosos no exterior quanto o brasileiro Paulo Coelho, como Ismail Kadaré, Anton Pashku e Fatos Kongoli. Cantores líricos reconhecidos em todo o mundo, como Inva Mula, Ermonela Jaho e Besa Llugiqi. Além, claro, de Majlinda Kelmendi, que conquistou nossa primeira medalha de ouro em Jogos Olímpicos”, disse.

“Portanto, a arte é algo diferente. Como diz meu pai, que também é diretor, ‘a arte é a zona frágil entre a vida e a morte’. Morte esta que vai além do sentido da vida. É uma zona de dimensões desconhecidas. Através da arte damos aos outros a nossa dor, a nossa esperança e, sobretudo, o nosso amor. A arte será sempre uma alternativa para a vida que sonhamos. Algum tipo de tratado para nossas esperanças. Por isso, a comunicação e o reconhecimento de nosso país em todas as formas de arte são, para mim, de uma importância fundamental.”


MONA

O curta de ficção conta a história de uma bailarina chamada Mona, que vê no palco durante seu ensaio uma garota muito parecida com ela. Ela corre para conhecê-la, mas a garota corre. Mona a procura pelas ruas da cidade, e vê a garota cruzando a rua por entre os carros. Mas em sua perseguição, um acidente acontece.

Segundo Sopi, “Mona” foi feito em um momento em que ela vivia um grande dilema em sua vida.
Filme é o representante de Kosovo no FESTICINI

“O filme foi desenvolvido para um projeto escolar. Eu estava em uma fase difícil, em dúvida sobre o que fazer do meu futuro, dividida entre continuar sendo bailarina contratada pelo Teatro Nacional de Kosovo ou me dedicar ao cinema. Foi então que descobri ‘Mona’, e isso me abriu horozontes, já que consegui mesclar minhas duas paixões”, contou.

O curta foi filmado em apenas um dia. O roteiro, também escrito pela diretora, foi inspirado em sua própria vida, já que durante seus longos ensaios de balé, a exaustão fazia com que ela tivesse algumas visões, distorções da realidade.


FESTICINI

Ao todo são 18 categorias em disputa. O vencedor recebe o Troféu FESTICINI, desenvolvido especialmente para o evento. O festival é totalmente voltado para a premiação de filmes independentes produzidos ao redor do mundo. Ao todo foram 610 produções inscritas, vindos de todos os continentes do planeta.

O evento conta com o patrocínio da APSEN Farmacêutica por meio de incentivo fiscal do Governo do Estado de São Paulo, além de realização da DZ.7 Realizações Artísticas. Para mais informações sobre o festival acesse www.festicini.com.br.


FILMES INDICADOS

MELHOR LONGA-METRAGEM

  • Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois – Brasil
  • Condado Macabro – Brasil
  • Percepção do Medo - Brasil


MELHOR MÉDIA METRAGEM
  • El Solecito Del Parque – Colômbia
  • Nua Por Dentro do Couro – Brasil
  • O Homem Que Virou Armário – Brasil
  • Reverso – Brasil
  • The Heat – Polônia


MELHOR CURTA METRAGEM
  • 14 Anys i Um Dia – Espanha
  • My Awesome Sonorous Life (Minha Incrível Vida Sonora) – Itália
  • No Caminho Dos Pés – Brasil
  • Pulso - Brasil
  • Wut - Espanha
  • Xavier - Brasil


MELHOR ANIMAÇÃO   
·         Criaturitas – Espanha
  • Cuerdas En La Vida – México
  • Feardom – Espanha
  • Golden Shot – Turquia
  • Roger – Espanha
  • Rosso Papavero - Eslováquia


MELHOR DOCUMENTÁRIO        
·         Benett – Brasil
·         Composto – Brasil
  • De Que Lado Me Olhas – Brasil
  • Inferno – Brasil
  • Preto, Pobre, Puto – Brasil
  • Saving Mr. Marbles  (Senhor Bolinhas de Gude) - Argentina


MELHOR ATOR
  • Eduardo Tocha (Tudo Que Você Ama Lhe Será Arrebatado) – Brasil
  • Flávio Fonseca (Tem Alguém Feliz Em Algum Lugar) – Brasil
  • Joaquim Lopes (Pulso) – Brasil
  • Michael Dukes (Duellum) – Espanha
  • Michal Wlodarczyk (Adaptation) – Polônia
  • Tristan Tenot (Horla) – França/Coreia do Sul


MELHOR ATRIZ
  • Amanda Pereira (Embaraço) – Brasil
  • Cristina Amadeo (Tem Alguém Feliz em Algum Lugar) – Brasil
  • Isabelle Vary (L’Instant) - França
  • Malgorzata Witkowska (Adaptation) – Polônia
  • Priscila Vilela (O Menino do Dente de Ouro) – Brasil
  • Rejane Arruda (Eclipse Solar) - Brasil


MELHOR ATOR COADJUVANTE
  • Benjamin Kraatz (Provisórios) – Suíça
  • Dariusz Siastacz (Adaptation) – Polônia
  • Gregório Musatti (Xavier) – Brasil
  • Lino Colantoni (O Seco) – Brasil
  • Marcus Veríssimo (Dissonante) – Brasil
  • Rafal Fudalej (The Heat) - Polônia


MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
  • Karine Ordônio (Maria) – Brasil
  • Leda Santana (Provisórios) – Suíça
  • Natalia Hubner (Eclipse Solar) – Brasil
  • Pilar Alcalá (14 Anys i Um Dia) – Espanha
  • Sofia Frozza Ampese (Três Dentes de Ouro) - Brasil


MELHOR DIRETOR
  • Giorgi Todria (Lost Village) – Espanha/Geórgia
  • Philippe Costa (Aspirina para Dor de Cabeça) – Brasil
  • Saman Hosseinpuor (Autumn Leaves - Folhas de Outono) – Irã
  • Sergi Marti Maltas (Wut) – Espanha
  • Stefania Vasconcellos (No Caminho dos Pés) – Brasil
  • Tucker Dávila Wood (Duellum) – Espanha


MELHOR DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA
  • Antonio Gonzaléz Méndez (Titan) – Espanha
  • Gerardo González Pérez (Cuerdas Em La Vida) – México
  • Gorka Gómez Andreu (Lost Village) – Espanha/Geórgia
  • Petrus Cariry (Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois) – Brasil
  • Ricardo Fujii (Aspirina para Dor de Cabeça) – Brasil
  • Zanyar Lotfi (Autumn Leaves - Folhas de Outono) – Irã


MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
  • João Inácio (Carta da Esperança) – Brasil
  • Kyrylo Sopot e Gabriel Galand (Horla) – França/Coreia do Sul
  • Lucas Neves (Tudo Que Você Ama Lhe Será Arrebatado) - Brasil


MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
  • Bartosz Kruglik (Adaptation) – Polônia
  • Felipe de Amorim (Tigre, Tigre) – Brasil
  • Gökalp Gonen (Golden Shot) – Turquia
  • Marcelo Ikeda (O Homem que Virou Armário) – Brasil
  • Ricky Mastro e Eduardo Mattos (Xavier) – Brasil
  • Sergi Marti Maltas (Wut) – Espanha


MELHOR FIGURINO
  • Aitziber Sanz Pascual (Titan) – Espanha
  • Josiane Silva (Três Dentes de Ouro) – Brasil
  • Laura Katz (Horla) – França/Coreia do Sul
  • Laura Riaño Arévalo (El Escape) – Colômbia
  • Tas Basterra (Duellum) – Espanha
  • Viviane Castelleone (Aspirina para Dor de Cabeça) - Brasil


MELHOR EDIÇÃO DE SOM
  • Gilmer Huayna (Ka) – Peru
  • Gökalp Gonen (Golden Shot) – Turquia
  • Ignasi López (Criaturitas) – Espanha
  • Iosu González (Lost Village) – Espanha/Geórgia
  • José M. Sospedra (Wut) – Espanha
  • Marco Testa (My Awesome Sonorous Life) – Itália


MELHOR MÚSICA ORIGINAL
  • Felipe Monsalve (El Escape) – Colômbia
  • Jan Fité (Roger) – Espanha
  • Maria Gadú e Aureo Gandur (Pulso) – Brasil
  • Rodrigo Leão (Mona) – Kosovo
  • Sirvan Azizi (Autumn Leaves - Folhas de Outono) – Irã
  • Tomás Simon (Dins La Fosca) – Espanha


MELHOR MAQUIAGEM
  • Amanda Gómez (Dins La Fosca) – Espanha
  • Cedric Martin (Horla) – França/Coreia do Sul
  • Dri Chepezan (Embaraço) – Brasil
  • Fábio Servullo (Condado Macabro) – Brasil
  • Manuela Martínez (Roboethics) – Espanha
  • Pedro Vincuna (Aspirina Para Dor de Cabeça) - Brasil


MELHOR MONTAGEM

  • Aleksander Nascimento (Reverso) – Brasil
  • Amanda Melo (Pombal 350) – Brasil
  • Gerardo González Pérez (Cuerdas Em La Vida) – México
  • Jamie Alain (Collider) – Canadá
  • Ramón de Los Santos (O Efeito Isaías) – Portugal
  • Tomas Sposato (Fantástico) - Argentina