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14 Dezembro 2009

O Menino que Andava Sozinho

O menino acordou.

Olhou para sua roupa. Percebeu que estavam sujas e rasgadas, como as de um menino de rua. Ele começou a andar. Alguns minutos depois, olhou para os lados. Percebeu que não conhecia ninguém e, quase instantaneamente, percebeu que não se conhecia. O menino não sabia seu próprio nome, nem o motivo de estar a esmo vagando pela rua.

O menino começou a ficar desesperado. Não porquê ele não conhecia ninguém, mas sim, porque ninguém o conhecia. Ele estava desesperado porque se descobriu só.

O menino começou a chorar silenciosamente. E enquanto chorava, foi percebendo coisas. Ele ficou impressionado com a quantidade de carros que passava pela avenida e pela quantidade de pessoas que passavam pela calçada. Ele percebeu que nenhuma das pessoas da calçada ou dos motoristas da avenida olhavam para ele. O menino viu um homem nervoso esbravejando para um celular. Viu vários motoristas dirigindo, provavelmente, para seus respectivos trabalhos. Viu casais andando abraçados ou de mãos dadas. Viu outros meninos de rua. Foi aí que percebeu outra coisa. O homem ao celular também estava sozinho, assim como os motoristas da avenida e os outros meninos de rua. Até os casais, apesar de juntos, estavam sozinhos, cada qual com a sua própria e intransferível individualidade. Por mais egoísta que aquilo fosse - e o menino sabia que era - a solidão das outras pessoas o acalmou. Ele descobriu que não estava sozinho em sua solidão. Descobriu que todos estavam sós. Descobriu que todos compartilham uma solidão velada.

O menino então se acalmou. Continuou sozinho. Mas ele sabia de sua solidão. Ao contrário das outras pessoas. Elas não sabiam. Pobres e ignorantes pessoas. Tão ocupadas com o trânsito, trabalho, e com o movimento, que se esquecem de olhar para o lado. Elas não percebem a vida, percebem apenas a sua própria existência.

O menino percebeu que estava com sono. Deitou no chão, e teve um sonho lindo. Ele sonhou que andava numa ilha... sozinho.

5 Comentários:

Paulo [ALT] disse...

Seu conto diz uma coisa certa cara. Acho que é o primeiro que eu leio daqui. Cada canto que eu olho eu vejo isso. Uma coisa é vc estar sozinho. Mas acho bem pior qndo vejo alguns cercados de companhia sem se dar conta que ele talvez esteja mais só do que eu mesmo. Final poético haha, bem bolado.

Se vc puder passar os outros blogueiros, claro.. passa aee.. agradeço se der. Ah, sou seu seguidor jah e te linko lah sim pq não? ^^

Ainda quero comprar o livro do Dexter, mas o primeiro, akele da capa da luva rs.

Abras!

Cristiano Contreiras disse...

És um cronista da atualidade, talentoso, parabéns!

Gabriel disse...

No domingo, alguém me disse que fazia tempo que nãos escrevia contos/crônicas...
Me pareceu o contrário com este texto.
Real, bem escrito, mas insensível.
Sim, é uma crítica.

Sozinho todo mundo nasce, mas a grande beleza da vida está em ver as cores refletindo na vidraça: mesmo que seja falso, mesmo que seja uma vidraça, cinza, perdida no meio do nada...de realidade estamos cheios. E nos tornamos perfeitamente insensíveis a tudo isso. A dor é indiferente, o riso, a alegria. Virou moda sentir-se vazio e nostálgico.
No fundo, prefiro ver as cores, mesmo qeu sejam só um reflexo...

Cristiano Contreiras disse...

O layout do Apimentário e aquela "nuvem de tags" eu que fiz. Abraço

Gláucia Franchini disse...

Olá Bixoo!! rsrs
Gstei mto do seu comentário e parabenizo por ess crônica...
Lá na faculdade muitos acreditam que o Jornalismo Literário já morreu, não tem mais vez...
Este texto é uma prova do quanto ele deve e está vivo. Adoro crônicas, nada como se deliciar como um belo conto... Jornalismo não pode ser apenas a polaridade Lula/Dilma versus Serra/PSDB...

Até o trote =)
Abraço!

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